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set 30, 2020

Com alta do dólar e escassez de matéria-prima, indústria enfrenta aumento em seus custos de produção

A persistência da alta cambial e o desabastecimento de matérias-primas no mercado interno estão preocupando o setor industrial pernambucano. É que a tendência permanente desse quadro tem efeito adverso e direto na atividade produtiva local, que precisa importar os seus insumos a um dólar elevado, aumentar os seus custos e pressionar a inflação do segmento. Segurando os impactos desde o início da pandemia, o setor acumula perdas em virtude dessa realidade e busca alternativas junto aos governos, como redução de tarifas de importação e mais acesso aos mercados internacionais.

“Desde o ano passado, o dólar vem apresentando altas elevadas. No início da pandemia, notamos que isso vinha numa escalada por conta das incertezas no mercado externo em relação à retomada econômica e também por conta do impacto da crise sanitária na nossa economia”, analisa o gerente de Relações Industriais da Federação das Indústrias do Estado de Pernambuco (FIEPE), Maurício Laranjeira, destacando que, de uma hora para outra, muitas indústrias, em diversos países, paralisaram suas atividades no ápice do isolamento, seguindo as medidas restritivas de cada local, interrompendo a produção e o abastecimento e, com a retomada, os produtores nacionais não estão tendo condições de atender à demanda por falta de matéria-prima.

O que Laranjeira pontua é que a dificuldade de encontrar insumo internamente se deve ao fato de as indústrias ofertantes nos mercados interno e externo também terem parado ou passado a produzir menos, e os negócios que precisaram recorrer à matéria-prima de fora tiveram que absorver a variação cambial dos últimos meses. De setembro de 2019 para setembro deste ano, a moeda estrangeira variou em 29,5%.

Para o empresário do ramo da indústria de transformação de plástico, Anísio Coelho, a depreciação do real frente à moeda estrangeira prejudicou e muito o setor. “Vários segmentos industriais têm suas matérias-primas atreladas ao dólar, então, à medida em que ocorre essa oscilação, todo o processo vai ficando dispendioso”, explica, dizendo que, em alguns casos, como na compra do polietileno (uma das principais resinas plásticas usadas na fabricação de embalagens), a alta chegou a ser de 30%. “Sem contar também que existe uma concentração excessiva na produção nacional de resinas termoplásticos em uma única empresa, responsável por 85% da capacidade produtiva nacional”.

Outro fator que vem preocupando o empresário tem a ver com a explosão provocada pela pouca oferta de matéria-prima e a alta procura após a flexibilização. “A nossa situação está complicadíssima, porque, além do custo com o dólar, estamos tendo que conviver com capacidade ociosa dentro das indústrias. Isso implica dizer que haverá um reflexo em cascata em toda a cadeia, porque a embalagem está em tudo”, explica, defendendo a redução das alíquotas de importação dos produtos. Segundo ele, o imposto de importação de resina chega a ser de 14% no Brasil, enquanto que a média mundial é de 6%.

Um dos setores que utiliza a indústria de transformação de plástico é a construção civil, que demanda, por exemplo, o plástico em PVC. Mas não é somente este insumo que vem passando por rearranjos inflacionários. De acordo com o empresário da construção do civil, José Antônio de Lucas Simon, a oscilação cambial está gerando dificuldade para o segmento, que começa a sentir os efeitos da desaceleração por conta do controle do preço e da cotação internacional. “Sobretudo nas compras de aço e cimento, cujos fabricantes são mais restritos e suas cotações são baseadas no mercado externo. O que é um problema para o consumidor, que, em breve, sentirá um aumento dos preços”, revelou. Na atividade, a inflação dos custos produtivos variou entre 20% e 30%.

Este é o mesmo cenário vivido pelo empresário do setor de couro Rafael Coelho, que, pelo fato de muitos dos seus insumos serem dolarizados, o impacto em sua atividade chegou a ser de 60%. “Claramente, a indústria se desarticulou, diminuiu a produção e, com a retomada, houve um movimento em V, o que tem gerado uma dificuldade também com transporte por conta do excesso de demanda”, diz, frisando que o grande problema são as variações cambiais bruscas, que provocam desajustes no mercado. Coelho defende, portanto, a redução ou o fim das tarifas de importação para viabilizar o mercado interno, pelo menos neste momento de crise. O Brasil é um dos maiores exportadores de couro do mundo, movimentando 1 bilhão de dólares a partir da existência de 200 empresas no Brasil.

Na visão de Laranjeira, o empresário industrial precisa de suporte para atravessar esses momentos e de incentivo para investir na atividade produtiva, bem como de benefícios que prevejam a redução de taxas de importação por parte do Governo Federal, para driblar a alta do dólar. No âmbito estadual, além da questão do ICMS de importação, existe a necessidade do Governo solicitar autorização junto ao Confaz para um REFIS, assim como fizeram oito estados da Região Nordeste. Essa é uma demanda feita ao Governo desde o dia 18 de março deste ano. Para a FIEPE, essas alternativas são essenciais para que a retomada aconteça de forma plena e segura para o setor.

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